ET CETERA, 2025 (Texto)

“Escrever com a tesoura produz restos”, lemos em MANUSCORTE (2019) de Sylvia Amélia – livro, por sua vez, inteiramente escrito por via de recortes. Recortar palavras e imagens tem sido uma das vertentes principais do trabalho da artista há mais de duas décadas, gerando uma quantidade equivalente de restos. Por analogia com a noção de contraforma, poderíamos denominá-los uma contramemória de tal trajetória, a crônica – simétrica, porém espelhada – das formas definidas a partir do corte. Porque delimitar formas gera, assim, restos que só podem ser definidos pelo que não são. ET CETERA.

Mas a artista não se livra desses restos. Pelo contrário, ela os coleciona de maneira sistemática. Tomada pelo que Umberto Eco denomina “a vertigem das listas”, Sylvia classifica e reclassifica tais materiais, por definição, inclassificáveis. Em um gesto semelhante àquele de quem discerne figuras no contorno indefinido das nuvens, os restos se tornam para a artista novos pontos de partida – figurativos, abstratos, verbais, conceituais. ET CETERA.

No presente trabalho, denominado ET CETERA, não é mais a tesoura que forma a palavra-chave, mas sim a montagem dos módulos transparentes, contendo, por sua vez, recortes montados e/ou acumulados de acordo com certas categorias. Fica, assim, o convite para seguir, de módulo a módulo, a lógica que os organiza, através da galeria- corredor Rômulo Bruzzi, espaço em si residual que conecta o palco do mundo ao mundo do palco. Como na enciclopédia chinesa inventada por Jorge Luis Borges, a lógica se vê aqui implicada com os próprios limites da capacidade de classificar. Nos restos da lógica, a lógica dos restos. Na sombra dos restos, a lógica das sombras. ET CETERA.

Miguel Javaral (Miguel de Ávila Duarte) é escritor, pesquisador, artista do som e editor na SQN Biblioteca.

Texto Expositivo escrtito para a exposição ET CETERA, de Sylvia Amélia, realizada na Galeria Rômulo Bruzzi, Galpão Cine Horto, BH.