Atenta às questões do espaço público e da coletividade, Sylvia Amélia é uma artista que articula suas obras – intervenções, ações, escritas, recortes – a partir de ruídos, fragmentos e resíduos do mundo. Sua passagem pelo arquivo do Departamento de Patrimônio Histórico de Belo Horizonte em 1997 deixou uma marca importante em sua experiência sensível, e assim sua atenção se volta, frequentemente, aos processos de transformação do espaço urbano e ao apagamento da história do lugar tanto em seu patrimônio construído, quanto em seu patrimônio natural. Em Movente, intervenção que encontramos no Sesc Palladium, Sylvia Amélia nos convida a olhar através das janelas e a enxergar essas transformações, “interpelar a paisagem” e escutar seus ruídos para acessar nossa memória coletiva.
Encontramos aqui duas situações que nos levam em uma viagem visual e auditiva durante nosso deslocamento pelo espaço. Ao descer as escadas rolantes, uma revoada de pássaros nos acompanha e ativa o espaço frio e mineralizado com encanto e surpresa, despertando-nos da alienação dos gestos banais e corriqueiros do dia a dia. Ao chegarmos ao foyer da Avenida Augusto de Lima, somos atraídos por uma abundância de cores que despontam da superfície transparente das janelas de vidro, e como uma espécie de filtro, torna a vista para a cidade muito mais interessante. Diante do asfalto e dos carros em movimento, vemos árvores coloridas como uma paisagem de floresta improvável sobre a dureza do concreto cinza.
A obra criada por Sylvia Amélia sobre as vidraças da fachada vai além da sobreposição de camadas imagéticas, pois ela aciona a sobreposição de diferentes tempos históricos, e portanto, incorpora a memória da cidade. Na década de 1960, Belo Horizonte crescia vertiginosamente e passava por um processo de verticalização, mudando radicalmente seu perfil arquitetônico. Seguindo uma lógica de organização urbana a serviço da eficácia, em 1968, em pleno pico de adensamento populacional, o então prefeito Luís de Souza Lima determinou o corte de árvores na região central da cidade. Assim, 150 pés de fícus foram rapidamente ceifados da Avenida Augusto de Lima. Eram árvores já adultas que haviam sido plantadas no início do século XX, quando a cidade ganhou o apelido de Cidade Jardim por contar com cerca de 38 milhões de árvores. A justificativa do prefeito, registrada em um jornal da época, é o elemento mais curioso e surpreendente da história: “Era preciso acabar com a imoralidade dos namorados debaixo delas” (das árvores). E a matéria continua explicando: “Assim, os namorados ficariam confinados a um outro canto, que não aquele em que os seus gestos pudessem ferir o pudor da tradicional família mineira1”.
Visto em retrospecto, não podemos deixar de avaliar como certamente moralista a decisão do prefeito e em franca oposição a uma política inclusiva para o desenho do espaço público. Outro aspecto é a marca de um ideal de
1 Correio da Manhã, 2 de novembro de 1968. Belo Horizonte.
desenvolvimento urbano que minimizava os conflitos, ao invés de colocá-los em debate, e ainda que dava pouca ou nenhuma importância ao futuro sustentável da cidade construída com um mínimo de integração com a natureza. Qualquer semelhança com a atual situação que envolve os interesses em minerar parte do que resta da Serra do Curral não é mera coincidência. A Serra do Curral é patrimônio de Belo Horizonte, de caráter ecológico, histórico e cultural, e a decisão sobre a exploração de seus recursos naturais (ou não) deveria ser objeto de debate público, o que não acontece dentro dos procedimentos políticos convencionais.
Diante do cenário atual em que enfrentamos os trágicos efeitos de uma crise sanitária global, parece incontornável a proposta do antropólogo e filósofo Bruno Latour de que é preciso partir da perspectiva ecológica para compreender as transformações de nossa época. Fazemos parte da geração que está sentindo o impacto da urbanização sobre a natureza e sobre a qualidade de vida na Terra de forma mais intensa. Agora, mais do que nunca, torna-se urgente a consciência de que todos os viventes fazem parte de um único e interdependente sistema.
Movente nos desperta para esse lugar de consciência da transformação da cidade como experiência coletiva.
A intervenção sobre as vidraças pode ser vista dos dois lados das janelas, ativando uma espécie de inframince que reorganiza a realidade, criando percepções singulares para cada observador. Do lado da Avenida Augusto de Lima, ele é um convite ao passante, pedestre ou motorista, e do lado de dentro do prédio, é um convite ao visitante para que exercite sua imaginação. O gesto da artista me parece ser muito bem descrito em um texto de 2014, quando ela apresenta suas maneiras de atuar na arte, de realizar “a intervenção baseada na escuta de objetos, espaços e ambientes (resíduos, pedaços de papel, livros, letreiros, placas, fachadas, parques…) e a invenção de uma vocação para a matéria e para o espaço”.
Já o material, o vinil adesivo utilizado para a construção das formas nas intervenções, normalmente usado na publicidade em comunicações visuais no espaço urbano, atende perfeitamente aos recortes de Sylvia Amélia e alude a uma experiência “matissiana” de desenhar diretamente na cor. A artista se serve da tesoura para criar toda uma atmosfera cromática, feita de fragmentos e de linhas que estabelecem a conexão entre o espaço externo e o espaço interno da cidade.
Camila Bechelany
Texto escrito para a Exposição Movente, Sylvia Amélia, SESC Palladium, Belo Horizonte, MG, 2022.